Neste blogue discutiremos 4 temas: 1. A linguagem enganosa. 2 As estruturas e os processos de desumanização criados pelas oligocracias contra a democracia. 3. A economia política (e.g. Petty, Smith, Ricardo, Sismondi), remodelada e crismada (no fim do século XIX) de "economia matemática", a qual teria o direito de se proclamar "ciência económica" (Ingl. economics) — um direito que não lhe será reconhecido aqui. 4. A literatura imaginativa (prosa e poesia).

24 janeiro, 2026


GRONELÂNDIA: 

o que não nos dão a conhecer está soterrado debaixo de muitas camadas de gelo, sofrimento e esquecimento motivado

Fernando Oliveira

 ..................................................................................................................................................................................................

«A América não tem amigos ou inimigos PERMANENTES, só tem interesses»

Henry A. Kissinger «The White House Years», Henry Kissinger, 1979.

 ...................................................................................................................................................................

0. INTRODUÇÃO

Em 2019, quando o The Wall Street Journal anunciou que o Presidente Donald Trump encarava seriamente a possibilidade de adquirir a Gronelândia, ninguém o levou a sério.


O quadro intitula-se TRUMP e é da autoria do artista gronelandês Kristian Keto Christiansen. Retrata Trump envergando os trajes, os óculos e as botas tradicionais dos gronelandeses a escavar o solo com um remo à procura de Elementos de Terras Raras. 

 
Mais uma piada, uma maluqueira do Trump. No século XXI não se compra um país, o feudalismo já acabou há muito. 

E ainda era o tempo em que «Foi bom reunir com o Presidente Vladimir Putin (...)»


Figura 1 – Encontro Putin-von der Leyen à margem da Conferência de Berlim, 19 de Janeiro de 2020 

No início de Janeiro de 2026, a declaração da Casa Branca de que o Presidente Donald Trump explorava activamente um amplo leque de opções para garantir a posse da Gronelândia provocou ondas de choque na UE, tanto mais surpreendentes quanto esta tinha ido à Escócia prestar vassalagem ao senhor feudal Trump. É o tempo da muito propagandeada e nunca especificada «crescente agressividade da Rússia e da China»!

O artigo publicado na revista dinamarquesa Politiken, que refiro mais abaixo, fez-me ir levantando sucessivas camadas de gelo que revelaram feridas profundas e não cicatrizadas. O que aparece não é só terras raras, petróleo, gás, lítio e outras matérias-primas como se refere aqui. É lixo radioactivo, promessas não cumpridas e uma história de experimentação humana que parece ficção, mas não é.

Vamos aos factos.

1. SOBRE A GRONELÂNDIA

1.1 Generalidades


Figura 2 – A Gronelândia numa representação mais aproximada
com a forma da Terra

 

A Gronelândia (em gronelandês: Kalaallit Nunaat, «Nossa Terra»; em dinamarquês: Grønland, «Terra Verde») é uma região autónoma do Reino da Dinamarca. Ocupa a ilha com o mesmo nome, considerada a maior do mundo, ao largo da costa nordeste da América do Norte, com uma área total de 2 166 086 km² e uma população de cerca de 57 000 pessoas, o que lhe confere a mais baixa densidade populacional do mundo em 2025, 0,026 habitantes/km². A língua oficial é o gronelandês desde 2009. A capital é Nuuk.

A Gronelândia é habitada há cerca de 5000 anos por povos provenientes originalmente da Sibéria. Foi sendo povoada por sucessivas vagas de pequenos grupos que deram origem a várias culturas, e a actual população inuíte da Gronelândia é descendente da última vaga migratória chegada à ilha por volta do ano 1200.

Nesta parte não podemos deixar de fazer uma breve menção a Portugal dado haver referência ao facto de, por encomenda do rei D. Manuel I, Gaspar Corte Real aqui ter chegado duas vezes, em 1500 e 1501, tendo desaparecido na sequência desta segunda viagem. Na opinião do Prof. Luís de Albuquerque [1],  os elementos de suporte a este interesse régio pela Gronelândia e até mesmo da chegada de Corte Real ao território são frágeis, mas sempre nos ficou o Planisfério de Cantino que coloca a Gronelândia dentro da zona de influência portuguesa definida pelo Tratado de Tordesilhas. Poderá constituir fundamento para litigar a posse?


Planisfério de Cantino – Wikipédia, a enciclopédia livre
Figura 3 O Planisfério de Alberto Cantino, de 1502


1.2 A colonização pela Dinamarca

O Reino da Dinamarca-Noruega [2] reivindicou a posse da Gronelândia como colónia em 1721, e depois da separação da Noruega da Dinamarca por imposição do Congresso de Viena em 1814, a Dinamarca manteve sobre a ilha o estatuto de potência colonial.

Desde 1 de Maio de 1979 que é uma região autónoma do Reino da Dinamarca. Em 2008, os gronelandeses votaram por maioria a favor da independência, tendo então aumentado a sua autonomia regional, sendo-lhes reconhecido o direito à independência quando desejassem.

O governo dinamarquês nunca procurou gerir a Gronelândia, e na década de 1950 entendeu que o problema estava nas pessoas, nos inuítes, e decidiu resolvê-lo. Lançou um programa de «dinamarquização» destinado a apagar por completo a cultura inuíte, atingindo não só os locais onde viviam, as casas, mas também o modo de vida e a cultura. Até 1975, milhares de pessoas foram desenraizadas, obrigadas a deixar para trás os túmulos dos antepassados, o único mundo que conheciam, as casas destruídas ou simplesmente abandonadas, no que constitui uma política clara de discriminação a vários níveis com base na naturalidade.

Chamaram-lhe «Política G60», uma experimentação de engenharia social que foi, na realidade, uma lobotomia cultural!

Em 1951, decidiram incluir as crianças no processo. Seleccionaram 22 «crianças experimentais» como lhes chamaram, entre as que consideraram ser as mais «inteligentes, saudáveis e promissoras», com idades entre os 6 e os 10 anos, e enviaram-nas para a Dinamarca, para «aculturação», «dinamarquização». Proibidas de falar gronelandês, perderam a língua, as referências culturais e sociais, e quando regressaram, 2 anos depois, foram proibidas de contactar os pais, as famílias e os amigos para não perderem o «verniz dinamarquês»!

Durante décadas o governo negou os factos, e só em 1998 estes foram revelados. As crianças não eram órfãs. Tinham sido tratadas como ratos de laboratório!

Em 2020, a primeira-ministra Mette Fredericksen pediu desculpa aos 6 sobreviventes do grupo, hoje na casa dos 80 anos que, entretanto, processaram o Estado e ganharam. Mas há alguma indemnização que possa devolver a infância perdida, substituir os anos de silêncio entre uma mãe e um filho?

«O facto de o domínio colonial dinamarquês ter sido racista, degradante e profundamente hierárquico foi reprimido, se não negado abertamente», afirmou aqui o professor Robert Christian Thomsen, professor na Universidade de Aalborg. «No entanto, esqueletos coloniais continuam a sair dos armários dinamarqueses».

Nas décadas de 1960 e 1970 cerca de 4500 mulheres, adultas e menores (para contextualizar, em 1965, a população média da Gronelândia era de 38 mil habitantes, sendo 18 mil mulheres) foram alvo da inserção, sem consentimento e muitas vezes sem conhecimento, de dispositivos intra-uterinos (DIU) para redução da população nativa no quadro de uma «política de controlo populacional e modernização». Só em 2022 é que a prática chegou ao conhecimento da opinião pública! A Dinamarca pediu desculpas oficiais às mulheres inuítes afectadas pelo programa e definiu um fundo de reparação, mas a implementação ainda está em curso!!!

Regressemos às décadas de 1950 e 60. A administração dinamarquesa força a modernização e procura retirar os inuítes das suas terras e das suas casas levando-os para as cidades, para prédios urbanos, transformando-os de caçadores nómadas em trabalhadores sedentários, e iniciou uma campanha de abate dos cães de trenó. Esta política veio a ser suspensa, e um relatório publicado em 2021 pediu desculpa reconhecendo a barbaridade da medida. Só que a saga da extinção dos cães de trenó prosseguiu por outras causas.

A economia (introdução das motos de neve) e as alterações climáticas (redução da época de circulação dos trenós de 7-8 meses para 2-3 meses devido ao degelo) determinaram a redução da população de cães de 30 mil para 12 mil em cerca de 20 anos.

Há uma expressão na Gronelândia que diz que um homem sem cães não passa de um homem. Um homem com cães é um rei.

Com o desaparecimento do cão, os inuítes perdem a sua última ligação ao passado.

E não se pode deixar de fazer referência a um indicador potenciado por toda esta política colonial: a taxa de suicídios!

Segundo a World Population Review, em 2023 a Gronelândia tinha uma taxa de suicídios de 76 por 100 mil (108 nos homens (H) e 39 nas mulheres (M))! Para referência e na mesma publicação, a seguir vem Suriname com… 29/100 mil (46 H/11 M) e Portugal tem 13/100 mil (21 H/6 M). A taxa média mundial ronda os 10/100 mil.

O conhecimento destes factos é importante hoje porque ajuda a explicar a profunda e visceral raiva que os gronelandeses sentem em relação à intervenção de potências estrangeiras. Mas a entrada dos EUA na «corrida» fê-los abrandar a pressa independentista, e como refere aqui o professor Thomsen, «as sondagens mostram que preferimos ficar com o diabo que conhecemos. Mesmo percebendo que a colonização dinamarquesa não era benéfica para a Gronelândia. Se alguma coisa foi, foi o contrário».

1.3 Os recursos minerais

Num artigo publicado na Tertúlia Orwelliana em Abril de 2025, embora num âmbito geográfico diferente, referi algumas particularidades associadas aos Elementos Terras Raras (ETR) e a existência na Gronelândia de reservas que poderiam ascender a 1,5 milhões de toneladas, assinalando que «os dados das reservas são dinâmicos», isto é, constituem estimativas resultantes de dados preliminares, que a prospecção mais detalhada pode ou não confirmar.

Só que, a exemplo do que sucedeu com a Ucrânia em 2025, os ETR foram arvorados em «leite e mel» da região, a solução de todos os problemas dos gronelandeses! O que não é verdade!

Kvanefjeld, em Narsaq, no sul da Gronelândia, pode conter o maior depósito não explorado de ETR do mundo. Segundo o Guardian, pode ser o segundo maior depósito do mundo de ETR e o sexto de urânio, mas primeiro é preciso saber o que lá existe e quanto. Depois, é preciso extrair e, pormenor tão importante como os anteriores, refinar, o que tem custos processuais e ambientais muito elevados.

Actualmente, a China controla cerca de 90% da capacidade de refinação dos ETR. Mesmo países que os possuem e os extraem, enviam-nos para refinar na China.

E os nossos «especialistas» logo concluíram, «Excelente, vamos minerar Kvanefjeld e acabamos com o monopólio chinês.» Só que há dois pauzinhos na engrenagem.

O primeiro é que os direitos de mineração em Kvanefjeld pertencem à Greenland Minerals (GM) (subsidiária da Energy Transition Minerals (ETM)), uma empresa australiana cujo maior accionista é a Shanghi Resources, uma empresa chinesa com ligações ao estado chinês.

O segundo é a radioactividade. Kvanafjeld é um depósito polimetálico em que os ETR estão associados a grandes quantidades de urânio. Para retirar os primeiros é preciso escavar o segundo, o que aterrorizou a comunidade de Narsaq, profundamente ligada à agricultura e pecuária e que produz a maior parte dos vegetais e da carne de carneiro que a Gronelândia consome.

Em 2021, o Partido do Povo Inuíte (em gronelandês Inuit Ataqatigiit; literalmente Comunidade do Povo) concorreu a eleições regionais com o lema «não à extracção de urânio» e ganhou.

Uma das primeiras medidas foi aprovar a 1 de Dezembro de 2021 a «Lei Número 20» que proíbe a extracção de qualquer minério com um teor de urânio superior a 100 ppm (partes por milhão) em peso. Como Kvanefjeld está muito acima deste limite, o projecto morreu. Ou não!

A GM resolveu avançar com um processo em tribunal contra a Gronelândia e a Dinamarca no valor de 11,5 mil milhões de dólares (o PIB da Gronelândia é de 3 mil milhões dólares).

Em Motzfeldt, na mesma Província de Gardar onde se situa Kvanefjeld, há um outro projecto ainda não explorado que conterá zircónio, nióbio, tântalo e óxidos de terras raras.

Segundo a Mineral Reources Authority da Gronelândia, há dez empresas que possuem licenças de mineração comercial e apenas duas minas activas.

A Gronelândia está entre a espada e parede! De um lado tem a China e os seus direitos de mineração, do outro tem os EUA, desesperados em garantirem os minerais para a sua “defesa” (se é que de facto o pretendem fazer e têm condições para tal ou apenas pretendem marcar uma posição, «chatear» diríamos nós, e nada mais). No meio estão 57 mil pessoas que só querem água e alimentos seguros e saudáveis e enfrentam a perspectiva de serem processados e irem à falência.

2. SOBRE O INTERESSE DOS ESTADOS UNIDOS

A ideia de comprar a Gronelândia não apareceu do nada, num qualquer título bombástico de 2019, como uma ideia de Trump. É preciso recuar no tempo para entender a fixação do tio Sam pela ilha.


Figura 4 – Um mapa com as localizações dos Estados Unidos (laranja) e Alasca (laranja)


Desde o século XIX, os EUA fizeram várias tentativas para comprar a Gronelândia à Dinamarca, nomeadamente em 1867, 1910, 1946, 1955, 2019 e 2025. Uma opção defendida por Secretários de Estado [cargo equivalente ao de Ministro dos Negócios Estrangeiros na nomenclatura europeia, n.e.] , discutida em privado por um vice-presidente e publicamente por um presidente, primeiro em 2019 e mais tarde em 2025.

2.1 Século XIX

Estamos no Ano da Graça de 1867.

O Secretário de Estado dos EUA é William Seward (1801-1872), o mesmo que comprou o Alasca à Rússia por $7,2 milhões de USD em Março desse ano.

Figura 5 – William Henry Seward, Secretário de Estado dos EUA de 1861-69.

Fotografia: Biblioteca do Congresso/Corbis/VCG via Getty Images

Seward queria mais do que o Alasca, e encomendou ao Departamento de Estado estudos para explorar a possível aquisição da Gronelândia e até da Islândia, numa lógica de controlar os principais pontos de estrangulamento do Atlântico Norte, dominar as rotas marítimas e projectar o poder americano para o interior do Oceano Árctico. No fundo, a lógica de construção imperial do século XIX. A política interna acabou por enterrar a ideia, mas a semente ficou!

2.2 Século XX

2.2.1 Os precedentes

Avancemos até 1917.

Nas Caraíbas, as Índias Ocidentais Dinamarquesas, que à data pertenciam ao Reino da Dinamarca, foram vendidas aos EUA por 25 milhões de dólares em ouro, passando a ser designadas como Ilhas Virgens Americanas. Estamos, pois, perante um precedente histórico.


Figura 6 – Localização das Ilhas Virgens Americanas


Em 1940, a Alemanha nazi invadiu a Dinamarca.

Receando que a ilha se transformasse num posto avançado para as operações do Eixo no Atlântico Norte, Washington estabeleceu um acordo com o embaixador dinamarquês no exílio para a construção de aeródromos e estações meteorológicas destinadas a defender o Mundo Ocidental. Terminada a guerra, as bases ficaram. Outro precedente.

2.2.2. O Acordo de Defesa entre EUA e Dinamarca de 1951 e a Base Aérea de Thule/Pituffik

Mais um salto, desta vez até 1946.

A II Guerra Mundial acabou, a Europa está destroçada, a União Soviética é uma potência em ascensão e os EUA entendem que a próxima guerra poderá ser travada em moldes diferentes dos até então conhecidos. Por isso, apresentam à Dinamarca uma proposta formal para a compra da Gronelândia: 100 milhões de dólares em ouro, literalmente ouro em barra. De uma forma educada, mas firme, a Dinamarca recusou.

Se não podiam comprar a casa toda, os EUA mudaram de táctica e decidiram alugar um quarto permanente. Em 1951, celebraram um Acordo de Defesa que lhes concedia acesso militar permanente à Gronelândia, apoio estratégico que ainda se mantém na que começou por ser a Base Aérea de Thule e é hoje a Base Espacial de Pituffik, a instalação militar dos EUA mais setentrional.


Figura 7 – Base Espacial de Pituffik, Gronelândia (Árctico) Fotografia: Public Affairs, New York District, U.S. Army Corps of Engineers

 

Em 1953, a base precisava de ser ampliada e as autoridades dinamarquesas dirigiram-se à aldeia de Umanac onde entregaram aos habitantes um ultimato que constitui ainda hoje uma das mais negras marcas da história comum: «Têm de sair, e já!»

E assim, 3 ou 4 dias depois, a 25 de Maio de 1953, 116 homens e mulheres, crianças e velhos pegaram nos seus haveres, despediram-se das suas casas ancestrais, dos túmulos dos seus antepassados, da única terra que conheciam e marcharam 130 km para norte, para Qaanaaq, onde nada, literalmente nada, os esperava a não ser tendas espalhadas numa encosta varrida pelo vento!

Durante anos o governo negou esta deportação afirmando que fora voluntária, para fugir ao ruído! Em 1999, um acórdão do Supremo Tribunal determinou a ilegalidade do realojamento e o direito dos sobreviventes a uma indemnização. Quanto? Cerca de 4300 dólares cada! A casa, a terra e o modo de vida valiam 4300 dólares! Uma roda de um dos aviões da Base custa mais!

Como se tudo isto não bastasse, a 21 de Janeiro de 1968 um bombardeiro B-52 com 4 bombas termonucleares despenhou-se no mar gelado, perto da base de Thule e dos terrenos de caça dos inuítes [3]. Não houve explosão nuclear, mas apenas detonação dos explosivos convencionais que destruíram os núcleos radioactivos. O local do acidente ficou contaminado com plutónio, urânio e amerício, um pesadelo radioactivo! Centenas de trabalhadores dinamarqueses e americanos estiveram envolvidos nas operações de limpeza, e muitos vieram a sofrer de doenças por exposição às radiações. Ora sucede que a Dinamarca praticava uma política nacional de país livre de armas nucleares [4] e estas eram proibidas no seu território, enquanto os EUA levavam a cabo missões nucleares de rotina sobre a Gronelândia! Uma das armas nucleares nunca foi encontrada! O acidente provocou 1 morto, tendo sobrevivido os restantes 6 tripulantes.


Figura 8 – Boeing B-52 Stratofortress (B-52) semelhante ao que se despenhou em Thule. Pode transportar até 32 toneladas de armas (bombas, minas, mísseis) e tem uma autonomia de combate aproximada de 14 200 km.


A Base Aérea de Thule é o elefante na sala da independência da Gronelândia, e funciona segundo as suas próprias regras. É uma peça da soberania dos EUA em solo gronelandês.

2.2.3. Camp Century e o Projecto Iceworm


Camp Century | Columbia University Press

Figura 9  Camp Century. A História Desconhecida da Base Militar Secreta dos EUA no Árctico Sob o Gelo da Gronelândia. Kristian H. Nielsen & Henry Nielsen. Columbia University Press, Julho 2021


Figura 10 – Cidade Sob o Gelo: o Mundo Fechado de Camp Century na Cultura da Guerra Fria

K. H. Nielsen, H. Nielsen & Janet Martin-Nielsen. Págs. 443-464 | Publicado online: 12 Fev. 2014. 



Em 1959, o US Army Corps of Engineers chegou à Gronelândia dizendo aos dinamarqueses que ia construir uma estação de investigação científica debaixo do gelo, um inocente laboratório árctico para estudar a dinâmica da meteorologia e do gelo. O que na realidade construíram foi uma cidade subterrânea escavada no glaciar, com alojamentos, hospital, capela, cinema, capacidade para cerca de 200 pessoas e energia obtida a partir do primeiro reactor nuclear militar móvel. A verdadeira missão era construir Camp Century para o Projecto Iceworm!


Figura 11 – Como o Exército dos Estados Unidos planeou esconder armas nucleares sob o gelo: Projecto Iceworm. https://www.youtube.com/watch?v=ePT8gp0LKsk



Figura 12 – Mísseis sob o gelo: Projecto Iceworm [Camp Century]

https://www.youtube.com/watch?v=v-K61DC0uhc


A ideia era escavar centenas de quilómetros de túneis subterrâneos para esconder mísseis nucleares Iceman, que seriam constantemente reposicionados através de linhas ferroviárias de modo a impossibilitar à vigilância soviética localizá-los e destruí-los. Uma cena saída directamente de um filme de Bond, James Bond! E tudo às escondidas pelas razões que já vimos.

Só que havia um problema: grande parte da camada de gelo da Gronelândia é glaciar, por isso… move-se!

As estruturas e os equipamentos sofreram tais deformações que o Pentágono decidiu abandonar Camp Century em 1967. O núcleo do reactor foi retirado, mas muito lixo ficou no local: dezenas de milhares de litros de combustível, materiais contaminados com PCB [5], efluentes e resíduos com contaminação radioactiva, tudo enterrado no gelo.

Na altura, pensou-se que o gelo seria gelo para sempre, mas hoje é diferente. Com a subida das temperaturas do Árctico, os cientistas alertaram para a possibilidade do degelo de secções de Camp Century e da potencial libertação de água líquida contaminada para os ecossistemas circundantes. Mais um desastre, «felizmente» longe do país causador!

2.3 Século XXI

Em 2020, os EUA reabriram um consulado em Nuuk pela primeira vez desde a década de 1950, a que juntaram um pacote de ajuda civil de 12,1 milhões de dólares para o desenvolvimento de empresas e infra-estruturas. A Dinamarca saudou publicamente a iniciativa, mas em privado exprimiu incómodo por esta tomada de posição permanente.

Numa sondagem realizada pela Verian e publicada em 25 de Janeiro de 2025, foram colocadas 2 perguntas:

«Quer que a Gronelândia deixe o Reino da Dinamarca e integre os EUA?»

«Se houvesse hoje um referendo sobre a independência da Gronelândia, votaria SIM ou NÃO?»

Os resultados são os que se mostram abaixo.

Figura 13 – 85% dos gronelandeses não querem sair da Dinamarca para fazerem parte dos EUA, 6% querem sair para integrar os EUA, 9% estão indecisos.

Opinion poll in Greenland, January 2025



Figura 14 – Se o referendo fosse hoje, 56% dos gronelandeses diriam SIM à independência da Gronelândia, 28% diriam NÃO e 17% não se decidiram

Opinion poll in Greenland, January 2025


3. SOBRE 2026

Para falar de 2026 temos de remontar a dois momentos em 2025.

O primeiro é 4 de Fevereiro de 2025.

Um senhor chamado Ronald Lauder, bilionário, dono do gigante da cosmética Estée Lauder, de há muito amigo e apoiante de Trump, publica aqui o artigo “Sou especialista na Gronelândia — estas três vias podem transformar o território na próxima fronteira dos Estados Unidos.”

Figura 15 – Ronald Lauder financiador de Donald Trump, numa fotografia de 2014.
Fotografia: Markus Schreiber/Ritzau Scanpix


Não vou entrar em pormenor no artigo, está disponível e é o rosário de chavões e declarações de intenções que imaginamos, mas Lauder aponta 3 vias para concretizar o que chama de «visão», de «aspirações do povo Inuíte da Gronelândia».

Uma opção é activar totalmente o Acordo de Defesa da Gronelândia de 1951, que concedeu aos EUA a jurisdição exclusiva sobre instalações e pessoal de defesa na Gronelândia sob a égide da OTAN.

Outra opção é um Pacto de Livre Associação (ou COFA), cujas linhas gerais se podem consultar aqui, modelado a partir dos acordos dos EUA com as nações insulares do Pacífico de Palau, Micronésia e Ilhas Marshall.

Uma terceira opção seria os Estados Unidos formarem um novo acordo trilateral com a Gronelândia e a Dinamarca para formalizar a cooperação no Árctico.

Esta opção só traria vantagens para todos … excepto para «(…) as influências da China e de outras potências estrangeiras.» Era importante «(…) que a Dinamarca também beneficiasse, colaborando com os EUA em projectos vitais de processamento de energia e terras raras e aumentando a estabilidade regional.»

«Para a Gronelândia, uma parceria mais profunda com os Estados Unidos constitui uma promessa de benefícios transformadores

«O investimento americano poderia diversificar a economia nacional, criar empregos e modernizar as infraestruturas, elevando o padrão de vida em toda a ilha.»

«Intercâmbios de educação e tecnologia permitiriam que os gronelandeses moldassem o seu próprio futuro — um futuro radicado tanto na independência como na prosperidade

«Um aspecto crucial é que uma aliança forte com os Estados Unidos salvaguardaria a soberania da Gronelândia, protegendo-a de influências indevidas da China e de outras potências estrangeiras

«Uma presença americana mais forte na Gronelândia permitirá contrariar a militarização do Árctico por inimigos, bloquear a invasão económica dos concorrentes e garantir o controlo dos recursos vitais das terras raras — reduzindo a dependência americana de cadeias de abastecimento vulneráveis agora dominadas pela China

Já no final do artigo, Lauder aponta o contrapeso do Alasca de um lado e da Gronelândia do outro, como podemos ver acima na Figura 4.

E termina com uma pérola: «Conhecer a Gronelândia é entender que ela não é apenas mais um activo estratégico: é a próxima fronteira da América

A palavra original de «fronteira» é «frontier», que carrega consigo toda a carga resultante do extermínio que os colonos europeus brancos praticaram sobre os nativos americanos no primeiro século de independência dos EUA, sobretudo na segunda metade do século XIX e princípio do século XX. Eram os tempos do Wild West, do Far West, do princípio do «destino manifesto» cunhado em 1842 pelo jornalista nova-iorquino John O’Sullivan. O «destino manifesto de ocupar um continente confiado pela Providência para a nossa expansãoMas, claro, estamos em pleno século XXI, quem pensa ou fala em extermínios!!??

De facto, augura-se para a Gronelândia «uma promessa de benefícios transformadores»!

O segundo momento é 10 de Dezembro de 2025.

A revista dinamarquesa Politiken publica aqui um artigo intitulado “Milionário apoiante de Trump compra empresas gronelandesas”, e a abertura não podia ser mais esclarecedora:

«O ex-Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, John Bolton, revelou que foi o bilionário Ronald Lauder quem lançou na mente de Donald Trump a ideia de ‘comprar’ a Gronelândia. Lauder chegou a oferecer-se como mediador com a Dinamarca, disse Bolton

John Bolton não é, como sabemos, um zé-ninguém. Esteve no primeiro mandato de Trump, saiu depois de desavenças com o boss, e sabe do que fala. E, como explica aqui Rasmus Sinding Søndergaard, investigador sénior do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais (DIIS) e investigador em política externa dos EUA, «No universo de Trump, os seus apoiantes privados são frequentemente mais importantes do que os diplomatas ou os conselheiros oficiais». «Há uma tendência de Trump para obter as informações de que necessita e tomar decisões com base em conversas com ex-parceiros de golfe, advogados dos seus processos e parceiros de negócios. São pessoas como Ronald Lauder».

Prosseguindo na leitura do artigo da Politiken, ficamos a saber que Lauder investiu na compra de uma empresa de águas minerais da Gronelândia, a Greenland Water Bank, que comercializa a água Imivik, extraída da nascente Lyngmarkskilden, no município de Qeqertarsuaq, Ilha de Disko. A ideia é colocar o produto no segmento da restauração de luxo.

Imivik (@imivikpuilasumit) · Qaqortoq
Figura 16 – Uma garrafa de água Imivik


Está certo! Segundo a Wired, a Gronelândia contém cerca de 6,5% da água doce mundial, as alterações climáticas estão a provocar o degelo, e mais de 350 biliões (350 seguido de 12 zeros) de litros desta água escorrem anualmente para o oceano. A melhor solução não seria procurar inverter MESMO as alterações climáticas? NÃO!! Vamos engarrafar a aguinha e vendê-la como se fosse o elixir da eterna juventude!

Segundo a Politiken, as demonstrações financeiras de 2024 mostram que a Greenland Water Bank teve um prejuízo de 20 000 coroas (2600 euros), os custos com pessoal registados foram de apenas 37 000 coroas (4900 euros), mas isto não impediu que um peso-pesado internacional assumisse o leme da administração.

Mas as ligações vão mais fundo: a Greenland Water Bank e a empresa de investimentos Greenland Investment Group a que Lauder está ligado com outros investidores, têm como presidente do Conselho de Administração Josette Sheeran. Com um currículo interessantíssimo, foi Secretária de Estado Adjunta dos EUA com o título de embaixadora no gabinete de Condoleezza Rice nos anos 2000, enviada especial da ONU ao Haiti e directora executiva da organização humanitária da ONU, o Programa Alimentar Mundial.


  Figura 17  Svend Hardenberg. Fotografia: Philip Davali/Ritzau Scanpix

              

E ainda mais fundo: a Greenland Water Bank tinha dois proprietários, os empresários gronelandeses Svend Hardenberg e Jørgen Wæver Johansen, que venderam uma parte a Lauder. Hardenberg foi, até 2015, um poderoso e controverso secretário permanente do primeiro-ministro da Gronelândia até ser subitamente demitido; foi director da empresa nacional de energia Nukissiorfiit, e desempenhou o papel de ministro dos Negócios Estrangeiros e Recursos Minerais da Gronelândia, Hans Eliassen, na série de TV ‘Borgen’. Desde 2024, trabalha para a controversa empresa australiana de mineração Energy Transition Minerals, que processou a Dinamarca e a Gronelândia, como vimos acima, depois de recusada a operação de mineração em Kvanefjeld.

Figura 18 – Jørgen Wæver Johansen. Fotografia: Pr-foto


Johansen foi eleito para o parlamento da Gronelândia em 1999 e ocupou quatro cargos ministeriais. Actualmente, é presidente local do partido governamental Siumut em Nuuk e é casado com Vivian Motzfeldt, também membro do partido e ministra dos Negócios Estrangeiros, Empresas e Comércio. Motzfeldt integrou a administração da Greenland Water Bank até 2018, segundo o registo do CVR (Central Business Register da Dinamarca).

4. CONCLUSÃO

Como irá o processo decorrer? Não sei, não tenho uma bola de cristal, e mesmo assim não sei se seria útil. Em todo o caso, não alinho na corrente de quem afirma que o carácter caótico, anárquico e errático de muitas das medidas de Trump, sem qualquer planeamento estratégico aparente, fazem com que nem ele saiba o que vai fazer. O imperialismo descarado que os EUA estão a praticar e os actos deste segundo mandato levam-me a crer que a «coisa» está decidida, só faltam detalhes.

Em 7 de Janeiro, o Politico elenca várias opções que, no essencial, não são muito diferentes das que Lauder aponta, e adianta ainda mais a opção militar.

A Gronelândia possui poucas defesas, não tem um exército territorial, e os recursos militares da Dinamarca na ilha são escassos e obsoletos. As «declarações firmes» da UE são palavras ocas. Grande parte dos recursos militares dos países europeus são dos EUA, e estes dispõem da possibilidade de bloquear alguns deles. É possível interferir nos sistemas de um caça F-35 ou de uma bateria de mísseis caso se saiba que podem ser utilizados contra quem os EUA não querem que sejam utilizados, desde logo contra os próprios EUA. E a recente e caricata «deslocação de tropas» mais acentua a vacuidade destas posições!

É todo este contexto que importa perceber quando se apregoa em parangonas que os EUA querem «comprar» a Gronelândia.

Os sinais são preocupantes, profundamente preocupantes.

Segundo fontes conhecedoras do assunto, «funcionários norte-americanos discutiram o pagamento de um montante fixo único aos gronelandeses como parte de uma tentativa de os convencer a separarem-se da Dinamarca e, potencialmente, unirem-se aos Estados Unidos», uma soma entre «10 mil e 100 mil dólares»!

J.D.Vance avisa os líderes europeus de que «ou se juntam aos EUA ou os EUA avançam»!

Trump declara que, «neste momento, a Gronelândia está repleta de navios chineses e russos por todo o lado»!!

E depois temos a exploração/extracção dos recursos.

Embora haja licenças activas para a extracção de petróleo, não são utilizadas porque a Gronelândia baniu as operações em favor de energias renováveis. Havia até uma empresa nacional, a Nunaoil, que foi reconvertida em NunaGreen. A extracção no Árctico é extremamente difícil devido às condições meteorológicas. Mesmo a mineração é muitíssimo complicada.

As condições são extremas, com temperaturas médias da ordem de −40 °C, por vezes chegando a −60 °C, acompanhadas por ventos da ordem dos 120 a 140 km/h, como sucedeu nas operações de limpeza dos resíduos do acidente do B-52.

E a isto acresce as horas de luminosidade, que em Nuuk, a capital, são de 21:19h em Junho, mas em Dezembro e Janeiro são de 4:22h e 5:33h, respectivamente.

O Comandante Supremo Aliado da NATO na Europa, o general Alexus Grynkewich, afirmou que «Eles [China e Rússia] não andam a estudar as focas e os ursos polares. Andam a fazer pesquisas para saber de que forma nos poderão atacar, à superfície e debaixo de água». E «os países da aliança têm de estar preparados para, em 2027, enfrentarem acções simultâneas de confronto com a Rússia e a China», que ele acredita puderem ser coordenadas (afinal já não é 2030!).

Segundo o cenário esboçado pelo general, «enquanto a Rússia lançaria acções contra países da OTAN (/NATO), a China virar-se-ia para Taiwan,» que, como sabemos fica mesmo ao lado do Árctico!

Sejamos claros, o que está aqui em causa não é a «crescente agressividade» de quem quer que seja e a necessidade de exercer vigilância.

O que está em causa é o desenvolvimento previsto para as rotas comerciais do Árctico, mais um prego no caixão do petrodólar! Não havendo forma de lhe fazer concorrência (a US Coast Guard [Guarda Costeira dos EUA] só consegue apresentar três velhos quebra-gelos com funções diferenciadas e nenhum deles nuclear contra os 7-8 de que a Rússia dispõe e os mais de que disporá em breve, todos nucleares, como se refere aqui), vamos procurar maneira de perturbar o processo, vamos arranjar uma posição que nos permita fazer qualquer coisa, tipo «provocação», «falsa bandeira», etc.!

O que está em causa é a «passagem GIUK» (GIUK gap em inglês, G de Gronelândia, I de Islândia e UK de United Kingdom (Reino Unido)), considerada um ponto de estrangulamento marítimo que podemos ver abaixo numa figura que permite compreender a fobia securitária e a paranoia armamentista que alimenta quem nos (des)governa.

 

Map depicting the GIUK gap and Iceland
Figura 19 – A Passagem GIUK (Imagem daqui)


Gostaria de terminar com uma nota de alerta, já que de optimismo não vejo nada, para quando se discute este problema.

Quando se fala de comprar a Gronelândia, não se pode deixar de falar na contaminação enterrada de Camp Century.

Não se pode deixar de falar no trauma das crianças experimentais, no deslocamento forçado de Thule, nos «esqueletos coloniais» esquecidos nos armários dinamarqueses.

Não se pode deixar de falar na mais elevada taxa de suicídios do mundo.

Não se pode deixar de falar numa camada de gelo maciça cuja fusão contribui directamente para a subida dos oceanos que ameaçam zonas litorais muito afastadas do Árctico, incluindo a nossa.

Mas também não se pode deixar de falar na fobia securitária e na paranoia armamentista que varrem o mundo para esconder a falta de resposta aos problemas sociais.

Quer-me parecer que há muita névoa artificial lançada para cima da discussão, muita areia para a frente dos nossos olhos de modo a nem sequer sabermos destes assuntos!

5. NOTAS FINAIS

Já depois de concluído o texto, não deixamos de descobrir novas camadas de gelo ocultas, que por sua vez escondem novos dados, novas informações, que não podemos deixar de partilhar.

1. Na conversa semanal do coronel Jacques Baud ao podcast de Nima Alkhorshid Dialogue Works transmitida no dia 19, e que tive a oportunidade de ouvir aqui, Baud refere-se a um documento do Danish Defence Intelligence Service (DDIS), intitulado Intelligence Outlook 2025 (Perspectivas de Inteligência para 2025), cuja versão em inglês se pode ler aqui.

Se Trump teve acesso a este documento, e é provável que sim, sobretudo às figuras, de que ele tanto gosta e de que não prescinde nas reuniões, não é difícil compreender que tenha afirmado o que afirmou e que se reproduz acima.

 

Figura 20 – Capa do Intelligence Outlook 2025 (DDIS, Dezembro de 2025)


O mínimo que se pode dizer é que é um “catálogo de horrores”, julgo que muito pior do que na Guerra Fria. Num documento com cerca de 50 páginas de texto útil, as palavras, nas versões em inglês, claro, «Rússia», «China», «Terror», «Irão», «Islâmico» dominam o texto [6] com fotografias de página inteira de Putin, Xi Jinping e soldados chineses, mapas repletos de figurinhas de aviões, barcos e linhas tracejadas de rotas possíveis, trajectórias de mísseis por cima do Polo Norte, análise gráfica sobre a prontidão da Rússia para a guerra (2031!), considerações sobre a decrepitude da economia russa a prazo, desenhos de submarinos com sugestões do que a China pode fazer para operar no Árctico, e também descrições de possíveis acções bélicas em Taiwan. A cereja no topo do bolo são as elucubrações do capítulo «Terrorismo, Instabilidade e Migrações» dedicadas ao terrorismo e, pasme-se, ao Estado Islâmico na Síria (!), às acções de «hostilidade contra os valores ocidentais» no Médio Oriente.

Perante a dimensão e extensão das ameaças que se prefiguram no texto do DDIS, que a própria Dinamarca redigiu sabe-se lá com que objectivo, não é admirar que só uma figura com a “estatura” de Donald Trump pudesse avançar e alçar-se como moderno D. Quixote, com o seu fiel Sancho «Marco Rubio» Pança, para combater os moinhos de vento num movimento que vem agora apregoar o «realismo baseado em valores», num discurso que o “Ocidente alargado”, em êxtase, se apressou a incensar como «histórico», que vem agora suscitar a «mais veemente indignação», que descobriu a «soberania», por parte de um conjunto de países que perdeu toda a credibilidade e cujas vozes se ouvem mas que ninguém escuta.

2. Por amabilidade de José Catarino Soares, ficámos a saber que mais interesses existem na Gronelândia, como podemos confirmar neste curto vídeo e que a Reuters também analisa com algum detalhe. São interesses ligados à Praxis, uma organização que se define como «técnico-libertária, que visa criar cidades-estado desreguladas» e cujo propósito é «restaurar a Civilização Ocidental»! Um projecto que atraiu o fundador da Praxis, Dryden Brown, e também Sam Altman (da Open AI), os irmãos Winklevoss, Joe Lonsdale (da Palantir) e outros para criar na Gronelândia um território sem impostos nem regulação. Uma utopia tecnológica que conta já com mais de 525 milhões de dólares, que necessita de centros de dados gigantes a funcionar 24/7 e cuja refrigeração pode ser praticamente de borla já que a Gronelândia dispõe do clima ideal!

E é aqui que entra a ajudinha, talvez decisiva, de Ken Howery, com um currículo digno de toda a pirataria a que assistimos. Em 1998 fundou a PayPal com um grupo que ficaria conhecido como a Máfia do PayPal (Peter Thiel, Elon Musk e outros), foi embaixador dos EUA na Suécia [7] com Trump, de 2019 a 2021. Em 22 de Dezembro de 2024, o presidente eleito Trump anunciou a intenção de o nomear embaixador na… Dinamarca, que o Senado confirmou em 7 de Outubro de 2025.

O movimento das cidades-liberdade reflecte o fascínio pela colonização de novas fronteiras americanas, radicado na nostalgia pela expansão para Oeste que ocorreu nos anos de 1800. A expansão para a Gronelândia «pode ser o início de um novo Destino Manifesto,» explicou o investidor tecnológico Shervin Pishevar com ligação a vários fundos de capital de risco, referindo-se à filosofia do século XIX segundo a qual a América era uma nação excepcional com a missão divina de conquistar novos territórios.

Para esta gente, a Gronelândia é mais do que uma ilha, é o laboratório perfeito para arrancar com uma nova sociedade!

3. E depois temos a capacidade de distorção da comunicação social. A SIC-N emitiu no passado dia 11 de Janeiro um documentário com o título “Gronelândia – Na Mira de Trump”. A tónica do relacionamento Gronelândia-Dinamarca-EUA enfatiza os aspectos negativos entre os dois primeiros. Assim se refere o «pouco amor pela Dinamarca», a «supressão cultural», as «feridas da colonização», a «desigualdade», a «crescente população de sem-abrigo», o «historial vergonhoso da colonização» e é da boca de um sem-abrigo há mais de 11 anos, apoiado pelo Exército de Salvação, que sai o comentário de que «já fomos colonizados muitos anos, não queremos sê-lo pelos EUA». Sobre a presença militar dos EUA, uma única referência, já mesmo no fim, a uma base militar de, pasme-se, defesa!

E sobre tudo isto ninguém fala!



NOTAS E REFERÊNCIAS

 

[1] Albuquerque, Luís de (direcção de), Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, Vol. 1, Círculo de Leitores, Lisboa, 1994.

[2] União real multinacional e multilíngue que vigorou entre os séculos XVI e XIX constituída pelos Reinos da Dinamarca e da Noruega e que abrangia as então possessões norueguesas das Ilhas Faroé, Islândia, Gronelândia e outros territórios), e os Ducados de Schleswig e Holstein.

[3] É possível encontrar em https://en.wikipedia.org/wiki/1968_Thule_Air_Base_B-52_crash #CITEREFBroken_Arrow_1968_%E2%80%93_Thule abundante informação sobre o caso, embora algum material bibliográfico indicado não esteja disponível.

[4] Em 1995, rebentou um escândalo político na Dinamarca depois de um relatório revelar que o governo dera autorização tácita para a colocação de armas nucleares na Gronelândia, violando assim a política da Dinamarca de zona livre de armas nucleares. Os trabalhadores envolvidos no programa de limpeza lutaram por obter uma indemnização por doenças associadas à radiação e que se revelaram nos anos seguintes ao acidente. Pelos EUA, o processo foi indeferido, mas saíram a público centenas de documentos classificados que revelaram erros grosseiros e graves no processamento dos resíduos. O governo da Dinamarca descartou qualquer ligação entre os trabalhos de limpeza dos resíduos e os cancros. Mais informações aqui.

[5] Materiais contaminados com PCB são produtos que contêm bifenilos policlorados, produtos químicos sintéticos utilizados em equipamento elétrico (transformadores, condensadores), mástiques, tintas e papel de cópia isento de carbono, especialmente em edifícios construídos antes de 1979; estes materiais colocam riscos ambientais e para a saúde dado que os PCB são persistentes, bioacumuláveis e podem infiltrar-se no ambiente, exigindo cuidados no manuseamento e na eliminação. Podem causar problemas de pele, danos hepáticos, disrupção endócrina e potencial carcinogenicidade.

[6] Se pesquisarmos pelas palavras em inglês para acomodar também adjectivos, «Russia» aparece 435 vezes, «China» 314, «Terror» 55, «Iran» 40, «Islam» 50.

[7] A variada e intensa actividade de Howery conseguiu que a Suécia aprovasse um aumento de 40% nas despesas com defesa para 5 anos – o maior aumento em mais de 70 anos. Trump agradeceria o trabalho de Howery no reforço da cooperação na defesa, segurança e economia entre os dois países dizendo que ele «serviu o nosso país de forma brilhante». (https://en.wikipedia.org/wiki/Ken_Howery)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Comentário a um artigo publicado na Tertúlia Orwelliana