Neste blogue discutiremos 5 temas: 1. A segurança social. 2. A linguagem enganosa. 3. As estruturas e os processos de desumanização criados pelas oligocracias contra a democracia. 4. A economia política (e.g. Petty, Smith, Ricardo, Sismondi), remodelada e crismada (no fim do século XIX) de "economia matemática", a qual teria o direito de se proclamar "ciência económica" (Ingl. economics) — um direito que não lhe será reconhecido aqui. 5. A literatura imaginativa (prosa e poesia).

25 junho, 2016

Tema 3

Justiça Poética


Numa nota de um livro que estou a escrever, escrevi o seguinte:

Afirmamos que o inglês se converteu em língua franca, mas não neutral, da alta finança, dos negócios, da diplomacia, da tecnologia e até, infelizmente, da ciência à escala mundial, pelas seguintes razões. O latim alcançou uma posição semelhante nos séculos XVI e XVII, mas muito mais limitada, visto que se confinava à diplomacia e às disciplinas cognoscitivas (ciência inclusive) no chamado mundo ocidental e só se manteve nessa posição até aos inícios do século XIX. Era, porém, uma língua neutral, tanto do ponto de vista psicológico como do ponto de vista sociológico, visto que não conferia privilégios especiais a quem a tivesse como língua materna. Nessa altura, o latim já tinha cessado há muito de ser a língua materna de quem quer que fosse. Era, como se costuma dizer, uma língua «morta». Além disso, o latim alcandorou-se a essa posição peculiar de língua franca internacional precisamente na altura em que as línguas vernáculas da Europa conquistavam o direito de ombrearem com ela em todos os domínios. Em Portugal, esse processo inicia-se muito cedo, no fim do século 13, com o rei D. Dinis, e está já bem consolidado no fim do século XVI. O uso do latim como língua franca internacional implicava, portanto, um esforço comum de aprendizagem a todos os seus utentes. Não é o caso do inglês, que é a língua materna de centenas de milhões de pessoas, que assim se vêm dispensadas de aprender outras línguas se quiserem fazer-se entender por pessoas e povos com outros idiomas. Embora imensurável nos seus múltiplos efeitos, é difícil imaginar maior privilégio de casta do que este nos dias que correm.

Agora, o economista António Bagão Félix, no seu comentário sobre o Brexit, chama a atenção para um pormenor (que é, de facto, um ‘pormaior’) ligado a este acontecimento:

Uma curiosidade: a língua inglesa, língua franca de hoje, vai deixar de estar representada na UE (haverá a relativa excepção da Irlanda cujo verdadeiro idioma é o gaélico)! E esta hein? (28 menos 1 (R.U.) não é o mesmo que 27. Público. 24.06.2016)

Eu vejo nisto um caso auspicioso de justiça poética. Os britânicos (e muito em particular os ingleses) recuperaram a soberania do seu parlamento em Westminster. Em contrapartida, perderam uma parte considerável do privilégio de casta que lhes conferia o “direito” de não terem de aprender línguas estrangeiras para se fazerem entender quando saiem da sua ilha e atravessam o canal da Mancha, continuando a comportar-se quase como se estivessem em casa.

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Comentário a um artigo publicado na Tertúlia Orwelliana